Não sobre amor, a peça de Felipe Hirsch transborda de uma beleza tão insuportável que ofende. Arrebata. Muda. A neve caindo sobre a moça da tela, a moça do palco, o coração do homem e as pistas falsas, as coisas que não são bem assim, o mundo em instantes fora do lugar. Se por acaso a peça estiver na tua cidade não chame ninguém. Vá sozinho, saia de lá em silêncio e sem grandes teorias sobre teatro, Sartre ou o amor. Só deixe que as coisas bonitas fiquem em ti tempo suficiente para serem absorvidas. Pode beber um conhaque. Não tenha medo dos centros das cidades. São todos iguais, os bebuns são os mesmos, os marginais também. O que te machuca não está nos outros. A vida misturada em ficção, onde começa o livro, onde termina o dia? Não há mais como saber e isto é bonito. E estranho. A gata agora mora dentro de uma mala, olha com olhos amarelos o envolta e, quando muito bem humorada, sobe na estante e me ataca. Abro garrafas, canto parabéns e sinceramente desejo que o amigo seja feliz do doer o peito. Ainda não compreendo e peço com sinceridade que as pessoas não me digam mais nada. Saber é sentir. Etmologicamente também. E sentir é o que menos quero. O que menos posso. Esta pessoa nova que vejo nas salas de cinema, nos jantares íntimos, nas ruas geladas do centro da cidade, na padaria velha, na papelaria de esquina, em frente ao meu computador, dentro do espelho usando meu casaco azul de listras brancas, esta pessoa nova me surpreende e baixa os olhos com frequência. Timidez. Acredito. Porque agora entendo que era preciso tanto tudo para que esta pessoa nova, esta pessoa que me encanta, me surpreende, me chama pra fora do poço existisse de falto. Esta pessoa nova que estava escondida atrás de uma infantil falta de medo aparece agora e a amiga diz: bem-vinda. Estávamos te esperando.E esta pessoa nova que vai sozinha ao teatros e cafés e que guarda canetas verdes em canecas presenteadas abre meus olhos de manhã e pela minha boca dá bom dia aos felinos, com as minhas mãos toma banho, abre a porta, desce pra rua e enfrenta o dia com o meu nariz bem empinado. Porque esta pessoa nova sabe que as coisas não são como nos sonhos. E que segunda-feira é só um dia depois do domingo.
Escrito por Cristiane Lisboa às 10h57
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