Em uma coqueteleira prata bem falso brilhante misturo as doses do que me causa. Sirvo em taça alta de vidro transparente - as taças coloridas sempre me parecem conter cicuta ou sexy on the beach - e bebo sem sentir o gosto. Sei que é gelado. Como poderia não ser? No sono de dramim, sonho com um encontro na sorveteria onde digo: nem se tomar todo este sorvete tu alcança a temperatura do teu coração. Imediatamente digo: Irene Mirim. Pois só Irene Mirim diria isto em um encontro casual tão catastrófico dentro da fragilidade que tem sido os tempos. O dia azul inspira uma confiança infantil e a esperança volta a dar sinais, fênix de pobre, renasce toda torta e com o bico na bunda. Daqui a pouco volto a acreditar na árvore feita de borboletas amarelas, na lenda do pianista do mar, no poder embriagante da vaca preta (sorvete de creme + coca cola + vodka), em mini milagres, casacos que emagrecem e pessoas que aparecem sem avisar, apenas para um abraço dos fortes. Daqui a pouco.
Escrito por Cristiane Lisboa às 12h52
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Adélia Prado
quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. não sou feia que não possa casar, acho o rio de janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. mas o que sinto escrevo. cumpro a sina. inauguro linhagens, fundo reinos dor não é amargura. minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. vai ser coxo na vida é maldição pra homem. mulher é desdobrável. eu sou.
Escrito por Cristiane Lisboa às 19h54
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- Foi a Angélica. - Do "vou de táxi?" - Não. - A do banco imobiliário. - Que coisa. E porque? - Não sei. - Você deve saber. - Juro que não. - Doeu? - Na hora bastante. Aos poucos fui ficando amortecida. - Amortecido é ruim. - Mas é melhor que dor. - Isto é. - Ela não deu justificativa? - Angélica? Alguma. Atravessou a rua atirando. Três pegaram certinho. - E você? - Como assim e eu? - O que você fez? - O que faz uma pessoa que toma três tiras a queima roupa? Arregalei o olho, né? E cai. - Quando você caiu ela voltou? - Não. Seguiu caminhando, como se nada tivesse acontecido. Fiquei com vontade de conversar, perguntar porque, estas coisas. Mas não ia adiantar nada. - Você já estava agonizando? - Sim. - Mas mantive uma lucidez mórbida. Sabia de tudo, percebia o sangue escorrendo, a vida acabando. - Você é muito lúcida. - Todo mundo sempre me chamou de louca, como tu pode dizer que sou lúcida? - Quase todos que chegam aqui, gritam muito quando me encontram. Você disse oi. - Tu me disseste oi primeiro. - Disse, mas você poderia ter gritado. - Achei melhor não. - Viu só? Lucidez. - Que seja. - Minhas irmãs estão contentes com o tom da sua pele. - Porque? - Quando é clarinha assim, é doce. - Isto eu não sabia. - Pois é. - Vamos começar pela cabeça, tá? O buraco ali é maior e já está podre. - Tudo bem. - Depois a gente vai para o resto do corpo. - Posso ficar de olhos fechados? - Podemos comer seu olho logo depois da cabeça, se você quiser. - Seria uma boa. - Será uma honra devorar seu cadáver. - Que bom. Dona Lesma? - Sim? - Vai doer? - Nada demais. Você já deve ter sentido dores piores. - Provável. - Vou chamar as meninas. - Foi um prazer. - Pra mim também. Até nunca mais.
Escrito por Cristiane Lisboa às 10h55
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