Cristiane Lisbôa


O amor acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Paulo Mendes Campos

Escrito por Cristiane Lisboa às 13h39
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TocaRaulTocaRaul
"Eu nunca cometo pequenos erros / enquanto eu posso causar terremotos. "

Escrito por Cristiane Lisboa às 11h03
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e as coisas vão, acontecem, não há literatura que suporte tanto querer e este excesso de sentimento não combina com estas facas que escondo nas botas de altos saltos e penso no vô João Bigode, que será que ele diria? não te apicha, não te enterra, te serve uma costela, negrinha, a vida é aquilo ali em frente mas o i-ching avisa é preciso estar forte, o rio, vai ser preciso atravessar o rio, de novo, já conheço este rio é azul limpíssimo, como aquele par de olhos quentes e frios mas tem a superfície densa e esconde pedras pontudas em toda a sua extensão e ai entrar no rio é saber que o corpo vai ganhar novos mínimos cortes, do tipo que não sangra, mas arde, como cortar o dedo indicador com uma folha de papel A4. neste negros tempos aprendi que não se pode mesmo dar murro em ponta de faca ou seja, se tenho que entrar, entro, sem drama, sem alardes, sem vômitos, sem remédios para dormir portanto, peço para que meu anjo da guarda - anjos não podem entrar no rio e de mais a mais eles tem asas, pra que nadaria quem tem asas? - que leve as roupas e os sapatos para o outro lado e ele leva, mesmo sabendo que ao chegar lá não servirei mais em nenhuma daquelas peças. entro nua no rio limpíssimo azul e sinto o primeiro corte. dói menos desta vez, quase sorrio, caminho lentamente, respiro fundo, coloco a cabeca dentro d'agua, abro os olhos e decido ir mergulhando. porque os cortes são produzidos por pedras de cores que não existem. e se for pra machucar que ao menos seja bonito. não?

Escrito por Cristiane Lisboa às 12h07
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