Penso em cristianismo, casas de cobra, chifres, franjas, copos, tintas, cores, casacos de ótimos forros, conta de luz, leques, cobertor, travesseiro, conhaque com café, olhos, mãos, bocas, louça rústica, fotos antigas, sonhos não acontecidos, felicidades, bebês, frases, livros, amigos, comidas, amores, quereres, músicas, caixas, estantes, docinhos, canetas, poemas, verdades, acontecidos, invencionices, curvex, estrelas, Deus, bunda, meias, caveiras, bife de fígado, cartões, pulserias, doce de leite, violões, aquela flor, café da manhã, torta de banana, coisas ditas, gatos gordos e em mais um monte de outras coisas sempre ao mesmo tempo, sem folga, sem respiro, penso em tudo isto e nem assim, nem assim consigo. Tsc.
Uma das coisas mais irritantes no jornalismo é a necessidade de catalogar tudo de maneira que seja fácil falar sobre. No lugar de uma análise, diz-se que fulano é x, siclana é y e todos fazem parte do movimento xy. Perai, cara-pálida, o buraco é sempre mais embaixo. Na revista Época desta semana, há uma matéria sobre o livro novo da Patrícia Melo, ela mesma rotulada como seguidora fiel e cega de Rubem Fonseca. Na mesma matéria, o jornalista decidiu falar sobre o nascimento de uma tal nova literatura b. Para quem não sabe, literatura b é o que, nos anos 20, chamava-se de literatura de “segunda classe” com altas doses de violência e nenhuma preocupação estética ou literária. Até ai, ok. Gosto do gênero. No “Sylvia não sabe dançar” brinquei com isso, adicionando um “pulp fictiom de costumes” logo abaixo do título principal. Acontece que, infelizmente, não é um livro onde o que importa é o sangue, embora ele esteja presente e, em algumas páginas, até dê uma pingadinha. A questão é que a matéria dá a entender que os escritores ali citados investem no mais fácil e rápido para atingir os leitores em detrimento da qualidade dos textos. Não que eu veja alguma coisa de mal nisto ou que tenha lido os outros livros citados na matéria. Apenas não é a minha praia. Assim como este não é meu livro de estréia e meu livro novo (que sai no fim do ano) não tem nenhuma gotinha de sangue. Ou seja, eu adoraria me especializar em livros b, vender, ser a Agatha Christie ou coisa que o valha. Mas não foi esta a minha escolha e não é este meu caminho. E nem o da Patrícia Melo, que de maneira nenhuma coloca a história acima da literatura. Quero sim escrever livros que possam ser lidos pela minha mãe, a tua, a manicure da esquina e aquele jornalista chato que usa meias para dormir. Mas será que pra isto preciso me colocar na prateleira dos enlatados? Preciso assumir uma postura de “quero vender livros e o resto que se foda” ? É mesmo muito necessário este rótulo de que bons escritores são aqueles compreendidos por meia dúzia de pseudos intelectuais? Ser vendável e lido é um problema? Será que vou ter que parar de usar roupas limpas, encher meus escritos de palavrões e usar palavras que não combinam com meu tempo e nem com aquele personagem apenas para fugir de um rótulo leviano? Pronto falei. Agora vou ali beber um conhaque quente e mostrar para os meus amigos que brilho no escuro.
E no meio do dia cinza-escuro, quando a tela do computador está branca e em silêncio a casinha do msn pula. Oi. Depois de pequenos enganos a senha, só quem sabe de que tipo de barro sou feita me chama por aquele nome, voltei a ter treze anos, reconheci, Oi. Falamos de banhos de chuva, de cama do lado de fora da casa, de mate, de planos, de estrelas, de pedidos, de sonhos, de saudade, de importâncias, de livros, do que somos, do que seríamos, do que podemos ser. Me senti em casa, confortável, com vontade de sentar debaixo de uma árvore e desandar a falar sobre o que sinto quando tenho que atravessar a Av. Paulista, aquela rua enorme e cheia de luzes, sobre a falta que me faz um céu inteiro, sobre prédios, sobre eu ter feito quase tudo que nunca achei que faria, sobre a morte do tio do cachorro quente, sobre ser verdade que os sonhos se realizam, mas não muito, sobre o quanto ele é imenso, presente e querido no meu coração. Ele teve que pegar o trem – não é uma coisa bonita isto? – disse que iria até nossa casa lendo os meus livros. Não resisti e dei uma choradinha. Não é todo dia que a vida te presenteia com a volta de alguém que jamais foi.
Cinco minutos de fôlego e falo sozinha pela casa. Mordo a parte interna da bochecha até sangrar e leio, leio, leio. Os livros andam e vão para debaixo de cama, atrás da geladeira, a cama do gato. Passo de novo pela mesma coisa, não compreendo a raiva, ensaio um aceno educado e baixo a cabeça. Se tu não sabe que minha coragem as vezes acaba, não sou eu quem vai te contar. Me machucas por gosto, sabendo o que está sendo feito, fechos os olhos e sangro um pouco. A roda do destino gira e acho triste e bonito não existir a possibilidade de fuga.