Cristiane Lisbôa


A vida não é nada mais do que uns pedacinhos de espelho quebrado que a gente tem que juntar. E, tu sabe como é mexer em vidro quebrado, sempre se acaba cortando o dedo ou aquela parte gordinha da mão cuja consistência é igual a de um bife ao ponto para quem sabe então, muito talvezmente aparecer uma imagem, algo assim, que decifre o que tu passaste a vida procurando. As vezes, por acaso, alguns pedaços se encaixam rapidamente sem que tu perceba e ai aparece a tal imagem, miragem, tu mesmo e ai, é permitido que se dê um suspiro específico que todo mundo conhece mas só usa em casos extremos. É algo como um sopro silencioso, um gritinho sem barulho, um arfar de peito que dói mas passa. A vida ganha um sentido mesmo que rápido e, dependendo do que for, dá uma vontade imensa de dizer: por favor não, prefiro os cacos. Mas não dá mais tempo e tu vê e passa a imediatamente desacreditar em mini milagres, filhotes de cachorro, unicórnios, gatos azuis, amores eternos e no poder calmante da água com açúcar. O que sobra é tu. E um monte de cacos para juntar. Bom trabalho, darling.

Escrito por Cristiane Lisboa às 14h20
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Espanta frio
O texto abaixo foi feito para o livro que acompanha o cd da banda Cérebro Eletrônico. Por motivo de forca maior (hahaha) o texto não está no livro. Mas existe, pois. E publico aqui como forma de explicar porque gosto dos mocinhos já citados. E dizer que hoje tem lançamento do lindíssimo cd lá no Sesc Pompéia, as 21 horas.
Vá, me dê um oizinho de longe e dance difamatoriamente. Que como já disse aquele, a vida é curta demais para ser pequena.


São Paulo, uma quarta qualquer de abril quase maio,
2008, ano do infinito em pé,

Caio, sua puta disfarçado,

O mundo está uma bosta. Mata-se por tudo e por nada. Sobretudo por nada. Os livros raramente tem capa dura, as estrelas nos decepcionaram, o vermelho anda rubro de vergonha e os terremotos não vieram acompanhados de monstros assassinos. Pena, não? Ao menos os padres mantêm o humor e a libido. Dia destes, um deles amarrou sei lá quantos balões em uma cadeira bem nojenta de plástico branco e levantou vôo. Pode rir, naja. E, caso ele tenha realmente morrido o receba com confetes. Vai virar santo em menos deum ano. Apostamos?
São raros, mas ainda existem os que esquartejam o amor com faca de cozinha, feito nós dois e aquele Príncipe Socialista. Mesmo estes andam cansados e, muitos, estão brincando no tobogã do inferno, aquele que vai para baixo e avante. Mas, sempre existe um mas, como a humanidade tem fortes e bravos anjos da guarda ninguém desistiu por completo. E alguns, ainda dançam sozinhos em pontos de ônibus. O que faz com que por merecimento, conheçam resultados de encontros. E tu sabe de que tipo de encontros eu falo. Aquele que é uma pequenina epifania e que, de quando em quando, muda o mundo. Ou aquilo que chamamos de mundo e que na verdade é só o que existe a nossa volta. O mundo é uma estátua viva, quem disse isto? Que nos interessa saber quem disse o que repetimos? Rio aqui e tu ri comigo ai de cima. Um bad carma a menos para algum fetichista da dor. Este encontro, não me interrompa mais Caio, por favor, deixa eu te contar, este encontro. Foi assim, quase comum, um homem encontrou outro e uma rave no meio e um piano e mais outro homem e um computador e outro e uma guitarra e personalidades e microfones e noites em claro e palavras e um som que de primeira é música eletrônica. Música o que? Não te espante, querido, não enlouqueci. Este encontro deu sim em uma banda cheia das modernidades que tu detesta. O que salva são uns detalhes que fazem com que, quem a escute com atenção, possa fitar pedacinhos de buraco negro e olho a nú. O nome é uma homenagem bonita. Cérebro eletrônico, aquele que faz tudo, mas é mudo, lembra disso? No começo, no começo do encontro, eles não funcionavam bem todos juntos ao mesmo tempo. E funcionar bem junto ao mesmo tempo é fundamental em uma banda. Mas era um daqueles encontros e por ser um daqueles encontros deve
ter contado com ajuda externa de algum fantasma bêbado ou um anjo boêmio e eles, os moços, insistiram, resistiram, inventaram vontades e juntos uniram letra, melodia, som. Quase sempre nesta ordem. E fizeram da música eletrônica, canção. Não duvide, Caio. Nem me interrompa. Isso existe. Eles fazem. E não tem graça alguma. Porque o riso não permanece. Nem a lágrima. O que fica é o ritmo. No peito. E nestas de descobertas e quereres eles viraram assunto. Das mesas e das filas de cinema e dos chatos e dos legais e das jovens cabeças e velhos pescoços e dos modernos da Augusta e dos espanhóis. Sim, porque eles fizeram cantar Barcelona. Em meio a tascas, tabernas, tapas e danças e gritos de si. Si para que? tu me pergunta. E eu te digo: para o devaneio. Que é o que importa. Gostas da frase? Te disse que ias gostar deles. Quem faz o que? O coletivo, meu amor. Embora cada um tenha uma especialidade bonita, tudo junto é que vira música. Porque tu sabe bem demais que inventar som para palavra é atirar flechas. E um índio nuca está só na caça. O sol está nascendo, a rosa amarela abriu um botão delicado que vou matar para acrescentar a este pacote. Escute o cd com calma. Use botinhas. Na primeira vez, escute lavando louça. Na segunda, alto, altíssimo e em silêncio. Somente na terceira audição coloque o fone saia para caminhar no centro desta cidade cinza e feia e que como toda feia trepa bem e se torna inesquecível. Pegue a nuvem sem trovões, eles não vão ser necessários, querido amigo. Porque tu vais estar cantando alto música de melhor qualidade. E o futuro.
Com amor e a mesma saudade,
Cristiane Lisbôa


Escrito por Cristiane Lisboa às 13h30
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Ando pelo mundo prestando atenção em cores, rindo ao telefone depois das três horas da manhã e esquecendo de dormir. O que é bom. A madrugada da janela que vejo é bonita, tem umas luzes amarelas e, quando começa a amanhecer devagar - note que sempre amanhece devagar, pois a manhã é uma preguiçosa incurável, vive atrasada e enlouquece o tempo, causando, inclusive, tristes suicídios em relógios suiços - os passarinhos conversam insanos o que sempre causa um espanto: afinal, estou ou não bem no coração da cidade cinza onde vivo? Se venho a pé no fim do dia, encho a casa de flores brancas, quase rosas, amarelo canário feliz e suspiro. Tão bonito casa com flor. Silencio coisas, tantas coisas e acho bonito. Aprendi a não pedir, a não esperar, a não querer aquilo que é exatamente o que eu quero. Se é melhor assim não sei, é. Olhos azuis e eu fazemos planos, nos imaginamos velhos, fazemos planos, escarafunchamos segredos do mundo e brindamos ao sucesso dos outros que o nosso tá garantido. Uso botas de altos saltos, tropeço toda manhã no mesmo lugar, peço café ralinho, pão com manteiga, não muita, coloco amigos nos ouvidos e faço pactos, pulo de abismos, me orgulho de textos alheios, invento coisas, digo sim, não, me contento em não ter mais nenhum tipo de felicidade histérica, mas confesso, sinto tanta falta de bater palminhas! Recebo e-mails que dizem: me curei de você. Não respondo. Dizer o que? O forro dos meus casacos de inverno tem estrelas, bolas, corações, os dedos estão com as pontas furadas de tentivas de tricô, o gato gordo pneumático tosse, chora lagrimazinhas quentes, dorme na minha barriga e reclama do atum. Vovó liga e diz que as fotos estão em cima de um piano falso, dou risada, mando beijos, encomendo dulce de leche. Apago as luzes e é isso. O que resto, é purpurina velha, já não tem o mesmo brilho.

Escrito por Cristiane Lisboa às 19h29
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"Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações ..
Drummond.


Escrito por Cristiane Lisboa às 15h33
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(...) E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e seu orgulho dilavata-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido: sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim em uma existência superiormente interessante, onde cada hora tinha seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria dum luxo radioso de sensações! (...)

O primo Basílio – Eça de Queiroz porque a segunda é fria, gelada e a literatura, o conhaque e os cigarros impedem que cabeças sejam jogadas ao forno.

Escrito por Cristiane Lisboa às 12h37
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