Pra que mesmo tantos escritos? Vejo anões aos montes pelas ruas. Anões usando terno, anões usando mini calças cargo, anões usando fusô com polaina. Anãs não vejo. Mas não é delas que tenho falado. Porque os personagens são assim, tu inventa e eles começam a mostrar que existem e mostram sem pudor, as vezes se esfregam na tua cara. Um dos anões apertou a minha bunda e disse: - Que consistência! E eu ri. E sentei no meio fio e ri até chorar pensando que tem coisas que não posso contar porque ninguém acredita mesmo. Então vou para casa e frio, faz um frio do caralho no prédio de Rosemary pego aquela pilha de revistas, vejo as dez mais bem vestidas, choro com a novela das seis e anoto e ai fome e PF a 5 pilas e quem serve? Um anão, claro. E decido não rir porque tem coisas que começam a ser assustadoras e caminhamos com os cachorros e José, o homem residual está de novo morando na esquina e digo: Oi José e tu anda mais um pouco e pergunta porque diabos tu é amiga do mendigo e digo que não somos amigos dividimos pacotes de bolacha e cigarros e, de quando em quando ele me dá idéias para terminar capítulos como aquela do sábio paraguaio. Subo as escadas no escuro pensando que nem é tão ruim desmaiar dia sim, dia não, quem sabe emagrece. Abro a porta e Hilda Hist pula no pescoço, depois de semanas de um humor insuportável com direito a mordidas e gritos e brigas histéricas com Caio F,o gato gordo, ela está doce e carinhosa e ronrona. Tudo pode mudar então, abro o e-mail e a irmã manda fotos encontradas na internet. De que? De anões pelados, claro. Mas pra que mesmo tantos escritos?
Escrito por Cristiane Lisboa às 19h56
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Salto toc, toc, toc, o barulho do assoalho é quase ensurdecedor. Sento na poltrona de balanço e olho as estrelas. Todas elas, uma por uma. Inicio conversa, explico, pergunto: que adianta ter esta consciência toda? De que me vale ter estas certezas e jurar nunca mais cometer os mesmos erros? Será possível que não há nunca, chance de errar e dizer ops, fodeu e então voltar e começar de novo, certinho, do ponto exato? Erramos e então nada mais pode ser feito além de engolir o choro e andar em frente. Sem arrependimentos que apareçam no verniz diários que é preciso usar para abrir os olhos, empurrar as cobertas, espreguiçar, lavar o rosto, escovar os dentes, tomar banho, colocar sutiã, calcinha - nesta ordem - escolher a roupa, acender incenso, olhar no espelho, dar comida para os gatos, fechar o gás, abrir a porta, sair, trancar a porta, descer do elevador, voltar para ver se a porta está trancada mesmo, bocejar, descer de novo, colocar o i-pod e contar borboletas até o ponto de ônibus. Pergunto, pergunto, pergunto, esqueço de assistir a novela: Ferraço ainda é mau? Juvenal Antena morreu? Olho de novo para as estrelas, segundos antes das nuvens cobrirem tudo, mais uma vez. Falei e não tive resposta alguma. De nada. O que é bom. Porque como dizia um professor de filosofia da faculdade "Conversar com o Universo é oração. Ele responder é esquisôfrenia."
Escrito por Cristiane Lisboa às 11h37
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Desde aquele sonho, Caio F. Abreu, o homem anda rondando todos os meus lados. Leio. vejo, sei, conheço, quero. Estranho. Caio F. Abreu, o gato, está com pneumonia, tosse, vomita, espirra, chora, dorme, acorda e lá se vai mais um pedacinho da minha sanidade e horas das minhas noites e dias e machucados pelo corpo, visto que não sei dar remédio sozinha. Faço quase tudo sozinha. Mas não isso. Na verdade, não faço um monte de coisa. Mas isso não vem ao caso. Falamos de anjos. E gatos. E fantasmas. Deito na rede, o gato febril no colo, o livro nas mãos, o coração em outro canto e leio: Deus é naja. Choro de rir e o domingo acaba. De novo, te digo, já foi tarde.
Escrito por Cristiane Lisboa às 10h59
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