Quando as coisas deixam de durar, alteram-se, diz Inês Pedrosa, lá da cidade que exibo no quadril, na certidão de nascimento e, eventualmente, nas capas dos livros. E porque é sabado (veja a mistura, veja a mistura) abro todas as janelas, molho as samambaias, compro seis unidades de mini rosas a 25 centavos a unidade e suspiro. Sou suspirosa, suspiro por tudo e, sobretudo, por nada. Penso em meus escritos que alguém disse "não são brasileiros e nem portugueses" e acho graça de minhas caravelas estarem por obra do acaso e das mais diferentes formas, navegando tão perto do porto. Queimo alecrim no meio da sala, porque jo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay e prendo no cabelo aquela fita preta e vermelha de máquina de escrever que me presenteaste quando mesmo? Ouço uma das personas de Tatá Aeroplano (que na persona que dialogo comigo é um príncipe socialista) e deito na rede, olhos cerrados. Acaricio a parte de trás dos teus cabelos, dentro da cabeça e sorrio largo. É o que tem pra hoje. E é bom.
Escrito por Cristiane Lisboa às 13h26
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Sentindo nada
Odeio colocar letras de música aqui. Mas comecei três textos e nada. Duas canecas de chá verde gelado e meio sonho de valsa (achaste que eu ia dizer café e cigarros? não se prenda ao que tu imagina das pessoas, meu bem), um e-mail, dois, e-mails, três e-mails. Fotos encontradas sem querer, logo eu, que uso o Mac como máquina de escrever. Mais uma tentiva. Nada. Não vou conseguir inventar pessoas, sensações, lugares, verdades. Nada. Cantarolei altinho esta música ai e pensei "serve". Agora que não sou mais surda. Não sinto nada. Mas já sei escutar.
Socorro não estou sentindo nada Nem medo, nem calor,nem fogo não vai dar mais pra chorar nem pra rir Socorro alguma alma mesmo que penada Me entregue suas penas Já não sinto amor, nem dor Ja não sinto nada
Socorro alguém me dê um coração que esse já não bate nem apanha E Por favor é uma emoção pequena, qualquer coisa Qualquer coisa, que se sinta Tem tantos sentimentos deve ter algum que sirva
Socorro alguma rua que me dê sentindo Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada Socorro eu já não sinto nada, Nada Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada
Cassia Eller - não tenho a mínima do nome desta música.
Escrito por Cristiane Lisboa às 12h54
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Chove sem muita trégua, desde dia desses. Elza canta nos foninhos. Ontem passei o dia com Bethânia e Omara, lindo cd, já viu a arte? Alegre que dá gosto.Mas de notícias, estamos assim: da última vez, cresci um ano.?Deus, me salve das sensações mornas. Me congele ou me queime, mas não permita que eu viva na mornice de um nada.?Topo morrer de amor. Topo morrer sem amor. Mas não cometa o desrespeito de me permitir cair no cômodo e anestésico estado conformado de quem vive apesar de. Clarice que me perdoe, mas eu acho que nisto, e talvez somente nisto, discordamos.?E penso em ti toda vez que chove. E penso em ti toda vez que o céu está azul pedindo praia. (apesar de)
No blog de Lidia P, (http://cafe-com-crime.blogspot.com/) a mais amiga que escreve uma coisas lindas e não acredita. Em nada. Que janta em silêncio comigo e sempre tem pipoca, mesmo que nem goste muito. Que se confundiu com a minha vida e caiu na maldição: jamais sairá dela.
Escrito por Cristiane Lisboa às 16h28
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Sylvia não sabe dançar ganhou 3 estrelas no ranking da Rolling Stone deste mês. Considerando que, o máximo são 4 estrelas não cadentes, tá bom, não tá? É como tirar 9 em uma prova de matemática da sétima série. A crítica rendeu brindezinhos difamatórios e vivas entre os bem amigos. Meu vô João Bigode diria: pobre, mas de café bem doce. Te imaginei sorrindo ao escutar esta frase. E propondo novo brinde. Tsc,tsc.
Escrito por Cristiane Lisboa às 14h59
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Ano passado fui em uma exposição do Yoko Ono. Não lembro onde foi, mas lembro que era da Yoko. Tinha uns quadros em branco, pendurados e, ao lado dos quadros, pregos e martelos. Adoro martelos. Adoro pregos. Amo pendurar coisas. Ali não dava para prender nada. Só fazer formas com os pregos. Coisa que descobri também gostar. Se não estou mentindo, fiz um c. De pregos. Uma graça. Grande Yoko, pensei. E ai fui até o balcão com martelos (de novo) e bati em xícaras. E ri. Os pedaços voaram para todos os lados. Um cara deu um pulinho para o lado. Esta mulher é ótima, pensei. Ainda bem que desmanchou os Beatles. Porque senão eles iam ficar cada vez mais chatos e não seriam mitos. Acredite. Esta é minha teoria, Yoko Ono consagrou a história dos Beatles. Eles devem desculpas a ela. Enfim, o assunto é outro. Aqui. Perto dos quadros com pregos e das mesas com xícaras tinha um labirinto. Um labirinto de verdade feito todo em acrílico transparente. Babaca, hein? Juro que eu disse. Mas entrei, claro, sou de família classe média pequena burguesa e nós, os classe média pequenos burgueses aprendemos a aproveitar as coisas sejam elas quais forem. A churrascaria serve sushi? A gente come uma pichanha seguida de um sushi. Ué. O hotel tem aquelas bananas que são puxadas por jet-ski? Vamos andar de bananas. Desperdício é coisa de pobre. Pobre desperdiça tudo. Coloca reparo. Pobre não sabe o valor de nada. E adora ser atropelado. Mas ai o labirinto. Transparente. Entrei. Achando fácil. Dei de cabeça no plástico duro na primeira dobra. E com o ombro em outra parede. As paredes não apareciam. Mas me atacavam. E tive um acesso de riso e as pessoas do lado de fora começaram a olhar. E fiquei com vergonha e uma certa vontade de chorar porque eu simplesmente não sabia sair de dentro de uma coisa toda transparente. E entrei em mini pânico. E demorei quinze minutos para achar a saída. E compreendi que com aquele labirinto ela provava o que todo mundo acha que sabe: que o óbvio, o fácil, o que parece simples e inofensivo é sempre a nossa pior escolha. Filha da puta.
Escrito por Cristiane Lisboa às 17h50
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Sempre detestei abóbora. O tom ferrugem alaranjado, o gosto quase mas não doce e principlamente o cheiro enjoado que corria solto na cozinha. Abóbora me dava enjoo, abóbora me dava raiva, abóbora era a coisa eu eu mais detestava na vida. Pouco importava que abóboras virassem carruagens de princesas ou doces e compotas. Fosse como fosse, com rodas ou coco ralado, abóbora seria sempre abóbora. E por existir, eu a odiava. Claro que não havia uma explicação mais lógica que essa. Algumas pessoas arriscavam dizendo que era implicância adolescente. Será? Bem, abóbora era o gosto favorito de mamãe. Logo dela, tão diferente de mim. Gostava do dia, eu da noite, de bossa nova, eu de rock in roll, de pele bronzeada, eu, da brancura das musas de poetas. Não tínhamos nenhuma afinidade fora o indelével laço sanguínio. E abóbora acaba sendo o ponto de fervura deste caldeirão. Se eu não comia, estava implicando, fazendo desfeita. Se eu comia, me sentia traindo princípios íntimos. Nenhuma de nós sabia o que fazer. O jeito era guardar o coração. No inverno dos meus 16 anos, mamãe ficou com pneumonia. Dias na cama fofa, febril, assustada. Sentada na sua cabeceira, ouvi histórias, contei coisas, disse o que nem eu sabia. Entendi que os pais são gente mais crescida que nem sempre sabem o que fazer para resolver uma situação. Decidida, rumei a cozinha. Abri o caderno de receitas da família, descasquei a dita cuja, fervi, misturei, dei uma choradinha. No fim daquele dia saboreamos juntas um doce de abóbora com pauzinhos de canela e cravos. E entendemos que para o amor dar certo, basta querer.
Estilo Natural. Na banca, xuxu.
Escrito por Cristiane Lisboa às 11h11
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As certezas são coisas tortas. Acreditamos que aquilo é o que representa e, no entanto, nada está seguro de ser o que potencialmente poderia. Sabe como? Em casos assim, é melhor o silêncio e os incensos e as chuvas fininhas e frias. A casa arrumadinha, parecendo de bonecas, tudo nos seus devidos lugares, menos o que sempre esteve. Enfim, não se pode ter tudo. Os gatos sabem o que fazem e se enroscam no pé, fazendo barulhinhos de motor que provavelmente significam “está tudo bem, estamos aqui, quentinhos, juntos, tudo bem, tudo bem, toque na minha barriga”. E a garrafa de conhaque ao lado da vela e do copo, pilhas de revistas, livros e jornais não lidos e a falta de abajures, a banheira, limpa, morna, com espuma e tu chegas assim, com pastéis de santa clara e expressões que não combinam com tanto mar de distância e umas tais ervas marroquinas que cheiram a cachoeira em dia de sol. E então existe a possibilidade de sair da bolha calma e dolorosamente construída em meses e vestir as botinhas com salto e usar o repertório de histórias. E agradecer. Pelas certezas tortas, os ventos enviados por Iansã, dona das tempestades e do fogo e que dizem, cuida com amor da minha cabeça. Pela amiga que ama as pérolas e que diz “não faça força, é como segurar o mar, deixe o mar.” Não é uma coisa linda, isso? E o domingo acaba. Já foi tarde.
Escrito por Cristiane Lisboa às 14h02
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