Havia uma menina, um pai e uma saudade estranha, feita de espaços não preenchidos. Havia também uma casa bem grande, maior do que o pai, a menina ou a saudade precisavam, visto que nem menina, nem o pai e muito menos a saudade vinham de uma linhagem de pessoas muito altas, largas ou solitárias. Não se entendia o que faltava ali. Liga, tempo, amor? O tempo, que por sinal é muito amigo da saudade, passava como deveria, mas parecia ser rápido. Logo, o pai era um avô, a menina uma mãe e a saudade a mesma, como se possível isto fosse. Mas aí fez sol. E não era dia de trabalho, de negócios de relógios, de cobranças, de saudades, nem de nada. Talvez fosse domingo, porém não tenho tanta certeza assim, pois quando vão para a lembrança, os dias feitos para a felicidade ganham contornos domingueiros, mas pode muito bem ter acontecido em uma segunda ou quarta. Bem, era uma quarta, sim, posso lembrar, quarta de cinzas, pós-Carnaval, colombinas voltavam com seus pierrôs para casa, índios bebiam guaraná nas esquinas e o avô, a mãe, a saudade e um pequeno menino chamado Vítor esperavam o motorista. Quando o homem chegou com uma árvore de nuvem em cores pastel, os quatro suspiraram fundo. Compraram muitas nuvens, esqueceram o motorista, no meio-fio degustavam sem parcimônia aquela doçura, o pai, que era avô, ensinou que o bom é quando o açúcar colorido gruda na ponta dos dedos e é preciso lamber rindo muito. A menina, que já era mãe, gostou, Vítor aprendeu e fez também, gargalharam todos, teve brinde de algodão doce, que nome mais lindo, deus do céu. O motorista achou bom, as colombinas pediram para provar e a saudade dobrou a curva da esquina. Não tinha mais nada para fazer ali, tadinha. A doçura tinha roubado o seu lugar.
Estilo Natural, na banca.
Escrito por Cristiane Lisboa às 17h35
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