O problema, meu bem, todo o problema, o que fode tudo, o que me faz contar milhos de pipoca durante a noite inteira, rasgar as barras das saias, correr na chuva e cair de costas em escadas de prédios desconhecidos, é que tu sabe exatamente o que está fazendo.
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Quando a gerente do banco te dá um apelido, significa que nunca mais, nunca mais em toda esta pierra vida tu vai ficar sem dívidas. Confia no que te digo.
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Simples complica, né?
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Escrito por Cristiane Lisboa às 15h35
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Chove cântaros e nós decidimos: Deus tem apenas duas opções. Nada mais, nada menos. Ou isto, ou aquilo. A ou b. Testezinho simples de múltipla escolha, Deus precisa apontar o dedo muito santo e pronto. Qual a dificuldade disso? Nenhuma. Qualquer tolo conseguiria, preto ou vermelho? A roleta gira e Deus senta e coloca a mão no queixo. Não sabe o que fazer, seria Deus libriano? Há dosezinhas de champagne e queijos aos bocados com geléia de morangos pequenos. Esbravejamos e a vida parece cada vez mais difícil, mais fácil, mais difícil, não desista, eu digo, ele bufa, cansado. Cansada estou eu, digo. Cansados somos todos, fala o garçom com gravata bordada de flores e concordamos todos, mexendo a cabeça para cima e para baixo. Deus sai em silêncio da mesa. Sem escolher nada. De novo.
Escrito por Cristiane Lisboa às 10h50
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Eu tento. Tento de verdade. Uso escova de dentes para limpar os vãos das paredes, rego as plantas, lavo os gatos, esfrego o chão com escova de aço, jogo água fervida com limão, um cravo, nos ralos, lavo e seco a louça toda, deixo as panelas brilhando, jogo água limpa nas escadas, troco as flores dos vasos, costuro os botões, passo cera vermelha no chão da cozinha, bato e viro o colchão, esfrego os lençóis, fronhas e, na última água jogo alfazema, passo jornal velho no único espelho que só mostra a minha cabeça, deixo os vidros brilhando, transparentes, apago os rastros de vômito em volta do vaso sanitário, tiro as manchas da banheira, troco os tapetes, coloco as cortinas no sol, torço as toalhas, rasgo as fotos, organizo os armários, tiro o sangue seco da navalha e nem assim, nem assim, meu amor, eu consigo dormir sem teu braço. Pois meu corpo está acostumado.
Escrito por Cristiane Lisboa às 13h36
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Há uma certa dor em acordar antes do dia amanhecer de fato. O céu tem um tom estranho, quase azul, quase rosa, quase lilás, quase bonito. As pessoas que correm nas ruas tem passos de zumbi, os olhos, não sei, minha única janela fica alta o suficiente para que eu não escute alguém dizer "te amo" na porta de entrada. E porque é quase manhã faço café, mais pelo cheiro do que pelo gosto, aprecio café com leite, muito leite, pouco café, mas do que eu te falava? sim, do café. Faço na cafeterinha já velha e usada, pequena, engraçada, alguém me deu tentando se presentear, presumo. Ou me fazer sorrir. Não sei mais. Faço café e quando o cheiro espalha fortíssimo sirvo na caneca de caveira e não bebo. Entrego a Santo Expedito, acordo a gata, dou o remédio bem devagarinho, digo "fique calma, bem calminha, vai ficar tudo bem, muito, muito bem." Ela ronrona, deita na minha barriga, suspira fundíssimo e dorme de olhos entreabertos. Repito que vai ficar tudo bem e não durmo. Nunca mais.
Escrito por Cristiane Lisboa às 15h00
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