Cristiane Lisbôa



Nem era para ser. Mas ai ele disse: tem preto. Preto é legal. Já imaginou um nome? Nunca. Pagú? Muito arte moderna, deixa de ser chata. E quem te disse que é mulher? Tem que ser, ué. Tem? Tem. Uma. Preta? Prestíssima. Hilda Hist. Gosto. Dá medo. Tu não combina com fofices. É. Apesar das bochechas. haha. Vem buscar. Já? Claro! Mas não avisei. E dai? E se ele achar péssima idéia? Não vai. Ninguém odeia coisas assim. Só os que tem coração de pedra. Não é o caso. Pois não. Busco onde? Em casa. Ganhei. Desiste. Eu quero. Tu não vai ter paciência. Vou sim. Não vai. Vou. Não vai. Juro. Não vai. Por favor. No caminho, a igreja começou a tocar os sinos. Casamento. Fiquei de tênis, na porta da igreja, esperando a noiva entrar. Fiz sinal da cruz e desejei de todo coração que ela fosse feliz, bem feliz. Nos perdemos. Chegando lá, tinha mais de um. O cinza me pareceu simpático, , mas quando eu disse Hilda, ela olhou. Tinha olhos amarelos. Correu para debaixo do fogão e fez um escândalo muito digno. Só podia ser ela. Cabia em pé, inteira, na palma da mão. E reclamava sem parar. É feia. Cabeçuda, né? Parece o inimigo do Frodo. Que Frodo? O do senhor dos anéis. Parece. Vamos? Que ela come? Leite, sei lá. Sob protestos ela foi para o colo, o táxi, a casa. Chorou três dias e três noites. Até que descobriu uma barba. Aninhou ali e parou o choro. Bebeu muito leite. Desenvolveu uma personalidade ranzinza, brava e ninja. Jamais recusou carinho perto das orelhas. Começou a prestar atenção na minha existência há pouco tempo. Já me considera amiga e certa vez, chorou de saudades no meu colo. Noutras, abraçou meu braço para que eu pudesse dormir. Te se esforçado para ser mais simpática com estranhos, aceitou um igual, porém feliz, me provou que gatos são seres realmente mais evoluidos e hoje ganhou um bolo de atum. Hilda Hist,felina 3 anos hoje. Vai odiar saber que virou post.


Escrito por Cristiane Lisboa às 13h31
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Eu tenho um homem só. Acredite. Parece mais, alguns dizem, mas estes é melhor nem ouvir. Eu tenho um homem só, mas ele não sabe, nem acredita. É que sempre gostei bem mais de ser nuvem do que ser chuva. Eu tenho um homem só e acho isso bom, bonito. Não conto pra ninguém porque espanto não é coisa que se ofereça assim, de graça. Eu tenho um homem só e as vezes me pergunto porque mesmo é ele mesmo, só ele, ele só, um homem comum, mas que sabe que desalinhavo com ventos noroestes. Eu tenho um homem só, repito para entender. Eu tenho um homem só e gosto do que isso significa. Eu tenho um homem só e hoje, bem hoje...

Escrito por Cristiane Lisboa às 12h38
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 Ana acorda antes do sol. Ri das estrelinhas que não querem dormir e se assanham para a manhã, contando piadas umas as outras. Estava acordando aquele dia. Dia que há águas se águas atrás ela havia inventando que era o mais lindo de todos. Havia sido outro, mas quem se importa? As coisas acontecem quando acreditamos que elas aconteceram. Como era aquele o dia, era reservado para risos e bonitezas. Ano após ano. Dias de bonitezas e risos, o todo era assim. Quase sempre. E este quase já era suficiente, pois se o todo fosse o tempo todo de risos e bonitezas pouca graça teria. Naquele última dia de bonitezas e risos havia uma dor translúcida cobrindo tudo. Mas Ana só consegue enxergá-la agora, quando enxerga a partir de ponto de vista flutuante de quem lembra. Tola Ana. Acreditou de todo coração que tudo poderia ser força, mas só o amor seria poder. Culpa das leituras. A mãe bem que tentou avisar “não se tranque no quarto, pare de ler, vais ficar louca de vez.” Note que a mãe dizia “louca de vez” porque tinha uma certeza que que a loucura já havia se instalado na filha. Havia. Graças. Se não fosse esta loucura Ana não teria aprendido a tocar o instrumento. Não estaria viva. Não isso e não aquilo. As lágrimas resolvem se assanhar como as estrelas. Custa a amanhecer. Ana diz a si “não chore”. Acabou o dinheiro para os cremes e será imperdoável ter rugas desnecessárias. Mas lágrimas são atrevidas e não obedecem a ninguém. Escorrem. Encontram o gato, que dorme encolhido no colo de Ana, que sabes, eu já te disse, está sentada na janela. O gato abre os olhos. Julga ser de pouca importância aquela água e volta a dormir e sonhar que usa cetro e coroa. Ana desiste. Escorre e escorre até cansar e o dia amanhecer. Era tudo mentira, ela se convence. O que acaba não era real. Ela não vai mudar de opinião, ainda bem. É preciso conservar certas verdades internas. O dia já está de pé, chuvoso como convêm a um dia que perdeu os risos, a boniteza e a importância. Para um dia que daqui a pouco será só mais um dia. Para um dia que em breve será nada além de um dia do mês de janeiro. Para um dia que certamente só Ana sabe que dia é. Ana rasga a cabeça em mil pedacinhos. Esquenta leite para o gato. Volta para a cama e se aninha. Ainda não era hora de acordar.

Escrito por Cristiane Lisboa às 13h16
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