Hotéis são estranhos para quem tem insônia. Anda-se a noite por aqui e ali, com a certeza de que, da próxima curva, um fantasma muito bem vestido vai te cumprimentar e fazer algum comentário sobre as estrelas. O máximo que consegui até ontem foi encontrar um pote de sorvete no chão. Era de creme. Mas hoje, no elevador, quatro horas da manhã, encontrei Pereio. De pijamas, carregando uma chaleira.
Não dissemos nada.
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No café da manhã, calça preta, bota preta de salto, camiseta preta, os maiores óculos do lado de baixo do Equador, ouço o rei
“ Use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só?”. Os ovos mexidos são uma delícia.
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Perdi aquele anel que tu me deste.
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Wi-fi é o tipo de coisa que pode te salvar de pular da janela.
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Todo dia 13, Vô João acordava cedo, preparava o fogo, o mate, mandava não chover e iniciava o churrasco. Lento. Pedia cervejas. Chegava um, outro, ele reclamava de todos os presentes, a cama – com colcha de festa – ficava cheia de chinelos de couro, boinas, talcos, facas e bermudas cinza. O dia corria. Meu pai carregava o bolo e a gente cantava parabéns dizendo “saúde, felicidade, que tu colhas sempre todo dia, paz e alegria na lavoura da amizade.” Vô João dava risada, me pegava no colo, a gente ia até a horta para que eu pudesse dar um beijo na careca dele. Há 13 anos no dia 13 só olho para o céu e digo:
- Parabéns, Vô Bigode.
Escrito por Cristiane Lisboa às 17h42
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