Cândida abre a porta. Conhaque. Deixe em cima da mesa e vá, ela avisa, sem agradecer. Não gosta de visitas inesperadas depois da meia-noite. A esta hora já é abóbora, Cândida que está com cheiro de mato. Sabonete, explica. O conhaque vai para os copos de borda vermelha e ele diz não vou. Posso chamar a polícia. Seria engraçado. Ele se aproxima muito da ponta dos lábios. E não estou falando do conhaque. O beijo é lento, destes que imediatamente escorregam pelo pescoço, o colo, os seios. Cândida pensa que como abóbora, deveria estar dormindo um sono sem sonhos. Mas o conhaque está ali. As almofadas são empurradas uma a uma, com os pés. Cândida pensa bem, pensa mais: melhor não. Ele finge que não escuta, sua língua em movimentos percorrendo os contornos, as curvas, os pedacinhos pálidos. As lágrimas, companheiras de Cândida até quinze, vinte minutos atrás, secam, visto que o corpo está ocupado produzindo outros líquidos. Cândida fecha os olhos, aceita, não controla, para de pensar, não fala, dança. Amanhã é outro dia. E depois de tudo, ao menos ela brilhou um pouco.
Escrito por Cristiane Lisboa às 10h00
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Ana não sabe mentir. Nem ao telefone. Gagueja. Treme. Ri sozinha. Tem uma dificuldade imensa em não ser ela mesma, incapacidade orgânica esta, que faz com que ela sofra bem mais do que se espera de alguém com a boca tão rosa. Nisso, de falar sempre a verdade, metade do mundo acha que ela mente. Tem graça. É verdade a vez em que ela acordou dentro de um carro rosa, no meio de uma plantação de melancia com dois travestis apertando com força cada um de seus peitos enquanto berravam "é silicone". Ou quando ela caiu em um buraco e ficou só com a cabeça de fora, no meio da rua. Por mais de duas horas. E aquela vez em que ficou dormindo dentro de um ônibus que estava sendo assaltado? Ana conta. As pessoas tem certeza que é mentira. Eela não retruca. Tão mais fácil passar por mentirosa. Hoje mesmo, Ana contou uma verdade tão absoluta. E ele não acreditou. Acha que é brincadeira quando ela diz: estás fodendo tudo. Pois estás. Ana me contou. E eu sei que é verdade.
Escrito por Cristiane Lisboa às 12h39
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