De sandália de prata e despida das armas de Jorge, Cândida dispensou as asas e foi andar pelas ruas de um centro que assusta muito menos a noite. Talvez porque as gárgulas da igreja estejam voando baixinho. Mastigava vidro, Cândida, blasfemando Deus e educadamente enviando o anjo da guarda para a puta que los pariu. Ou para a casa do caralho. A escolher. Cândida sempre teve alma tenra e generosa. Chegando onde deveria, abriu a correspondência: o banco xingando, um convite imediatamente rasgado e a carta. Com selos desenhados e um cheiro de camomila seca. Te espero aqui, dizia no fim. Cândida achou por bem chorar alto. Desceu as escadas a procura de ajuda e recebeu tapas de uma grande mão cheia de racionalidade. Não te pedi isso, ela não disse. Mas deveria. As lágrimas se transformaram em monstrinhos assustadores e furta-cor que dançavam em volta dela, dizendo verdades absolutas, coerentes e dolorosas. Sabendo de onde vinha aquilo, Cândida lavou as mãos com força e água quente. Depois, enfiou dois dedos na garganta e com eles procurou um fio solto. Demorou um pouco a encontrar, a alta temperatura e o excesso de viscosidade dificultaram um tanto. Puxou rápido, como quem arranca um dente. Sentiu os pedaços de vidro voltando junto, sangue, calor, nojo, vômito, o coração saiu vivo, soltando fios como se fosse uma manga aberta em dia muito quente. Cândida cobriu a mesa de centro com uma toalha velha e pegou a única faca de serra que sobrou lá de um conjunto ganho de presente no tal noivado e cortou o coração em pedacinhos bem pequenos, do tamanho de botões de vestidos de festa de formatura. Jogou tudo, incluindo a toalha, no lixo não reciclável, sentou na cama e fez exatamente o que não deveria fazer. Os monstrinhos furta-cor voltaram. Eu não matei todos vocês? ela disse em voz alta. Ouça, eles gritaram em coro. Cândida ouviu. Os pés doíam. Cândida falou. Os olhos começaram a doer muito e quem estava ouvindo a voz de Cândida entendeu errado. As preposições estavam fora do lugar? Cândida teve vergonha. E raiva. E mais vergonha. Deixou de lado a ironia e pediu muitas desculpas, a Cândida. Estava errado também. Cândida não conseguia mais acertar, escolhia o caminho errado, não mentia, não enganava, não optou por desfilar por ai fingindo felicidade plena. Erro, hein? Cândida parou de chorar. Mudou de assunto. Disse “tchau” com verdade na voz. Voltou para o lixo e recolheu pedaço por pedaço. Colou com cuspe. Os fios ainda estava lá, talvez fosse bom. Lavou as mãos com água mais quente ainda (tinha terror de infecções) e colocou no lugar. Ficou mais para a direita. Antes assim. Cândida ligou de novo e respondeu a carta: pode esperar. Dormiu como há muito não dormia. Os mortos tem sempre o sono dos justos.
Escrito por Cristiane Lisboa às 16h04
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- Tua estrela está no céu. - Te deixo fazer um pedido. - Dois? - Um. - Dois? - Um. - Pedidos estão inflacionados. - Isso é egoísmo. - Nunca te disse que sou boa. - Te respondo com a piada que pensei? - Não, por favor. - Pronto, fiz. - Vai se realizar. - Tudo que pede ela dá? - Só o que eu mereço. - Eu mereço o que pedi? - Como vou saber? - Pedi para ti sorrir. - Mentira. - Olha, estás sorrindo. - Pedido realizado? - Não. Menti. - Sabia. - Pedi um beijo? - Dela? - Dela quem? - A estrela? - Teu. - ... - Agora, assim, aqui? - Quer que eu mande o mundo parar de rodar? - Sim. - Pronto, parou. - É. - E o beijo? - Menti. - Qual o feminino para cafajeste? - Cafajesta. - Cafajesta. - O mundo voltou a rodar. - Percebi. - Pode sorrir para foto? - Não. - Para de tirar foto. - Por? - Saio feia. - Só quando tu quer. - Tira foto do meu sapato. - Quero tirar foto do teu colo. - Muito óbvio. - Do teu dedo do pé. - Muito feio. - Da coxa. - Muito branca. - O gato vomitou. - Ele é bulímico. - O céu é feio aqui. - Já gosto. - Tu vai comigo? - Pra lá? - É. - Não sei. - Tu iria? - Se estivesse no teu lugar? - É. - Sim, iria. - Opinião comprometida, esta tua. - Mas sincera. - Muy. - Me abraça? - Sempre. - Medo não combina contigo. - Nem azul. - Preciso conseguir dormir. - Fico te olhando. - Que chatice. - Fico. - Não quero. - Fico. - Cafuné? - Se ficar me olhando vai virar post. - Ih, já virou...
Escrito por Cristiane Lisboa às 11h57
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