Café com leite
É preciso amar, sabe ? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e,com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo.
Como deve ser triste a vida dos homens que têm mulheres de tarde , em apartamentos de chaves emprestadas, nos lençóis dos outros! Como é possível deixar que a pela da amada toque os lençóis dos outros! Quem assim procede (o tom é bíblico e verdadeiro) divide a mulher com o que empresta as chaves.
Para os chamados "grandes homens" a mulher é sempre uma aventura. De tarde, sempre. Aquela mulher que chega se desculpando; e se despe, com todo desgosto, enquanto dura o compromisso. É melhor ser-se um "pequeno homem".
Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do dever cumprido.
No mais, tudo é menor. O socialismo,a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo o asceticismo da ioga... Tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.
Antônio Maria, que é meu mestre e nada me faltará
Escrito por Cristiane Lisboa às 15h55
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Era um sábado bem comum. Não estava frio, nem calor, mas o céu tinha estrelas, muitas. Coisa que me orgulho, aliás, é morar em São Paulo e ter uma sacada que me possibilita ver o céu e cultivar samambaias. Durante a semana eu havia ganho em um sorteio do trabalho uma pedra de barro que prometia em forno comum assar pizzas com gostinho de Itália. Do amor, um livro do Jamie Oliver que acredite, tinha uma receita aparentemente muito fácil de massa de pizza caseira.
Inspirada pela conjunção de fatores rumei ao supermercado, farinha especial, queijos, duas garrafas de vinho, um rolo de macarrão, guardanapos coloridos. O manjerição viria da quase horta, embaixo das samambaias. Lembrei que Cumpadre Vitor estava só, sua rainha estava estudando fora e ele sentia saudade em gotas imensas. Liguei.
Tu vai fazer a massa? Claro. Risos. Meia hora depois a cozinha tinha farinha por todos os lados e meus braços estavam exaustos de sovar a massa e bater com o rolo. Sim, bati com o rolo. Pode rir. Cumpadre chegou com rúcula, presunto, calabresas fininhas, mais queijo, molhos de tomates varidos, mais garrafas de vinho e um azeite chique. Estávamos preparados para uma noitada. Enquanto meu amor dormia no quarto, exausto de mais uma noite em claro, trabalhando, nós dois chorávamos de rir na cozinha. As pizzas não ficavam redondas, eram quadradas, retangulares e de formato indefinido. Ameba. Gargalhadas gerais. Inventamos coberturas, deixamos ora mais queijo, ora menos, estávamos testando as possibilidades. A pedra cumpria lindamente seu papel, embora estivesse tão quente que não conseguíamos mais tirá-la do forno, o que fazia com que a pizza tivesse que ir até ela. Quantas coberturas conheceram o chão! Ao fim da noite, era quase manhã. A cozinha estava irreconhecível, parecia que a noite anterior abrigara uma festa. E das boas. Mas foram apenas dois amigos falando de delicadezas, de bobagens, de sentimentos, de saudade, de quereres, de planos para o futuro e da possibilidade de queijo brie combinar com alecrim. Fácil ser feliz, né Cumpadre ?
+ texto da coluna Comida de Alma, na Estilo Natural deste mês
Escrito por Cristiane Lisboa às 11h10
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