Minha vizinha era feia. Tinha uma testa larga, um cabelo que crescia para cima e para os lados, nunca para baixo, uma pele craquelada de pontos escuros e uma boca permanentemente roxa. Suas mãos, para compensar, eram lindas, macias, de dedos longos e unhas madrepérola. Com aquelas mãos, fazia bolo de cenoura com cobertura de chocolate e por cima do muro me chamava para o lanche. Aceitei quase todas as vezes. Depois do lanche, piano. Que coisa linda, meu Deus.
A vizinha sabia tocar piano.
Quando saí da cidade, ela me deu um beijo, um abraço sufocante e me entregou a receita do bolo de cenoura. Nunca fiz, mas guardo como relíquia dentro de algum livro de poesia. Ontem a noite, mamãe liga, apavorada. A vizinha mandara matar seis pessoas. Estava presa. E teve um acesso de riso quando a polícia abriu a porta.
- Culpa daquele rosto, hein, Cristiane? fala mamãe.
E depois há quem diga que ficcionalizo a minha própria vida.
*
Na porta, um vaso de copos de leite. A flor mais sexy que conheço. No bilhete “seu sorriso tem o lume, que nenhuma estrela tem.”
*
Souza Lima nunca comeu uma mulher de quatro. (Esta frase não é muito esquisita?)
*
Cuidado, a realidade Maria, é louca.
*
Tenho uma memória roubada de gente velha, cheia de frases, pérolas e vestidos rodados.
*
Eu só não te mato, porque teu sangue fede.
*
“O dono da dor sabe aonde dói” (De que música é esta frase?)
*
O senhor me desculpe, mas estou sem calcinhas.
*
Sabia que a Xuxa não freqüenta casamentos?
*
Sou mais viva, debaixo do céu nublado. E tu?
Escrito por Cristiane Lisboa às 11h26
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|