Oito horas em ponto. Levando-se em conta que fui dormir quase neste horário, acordar não estava nos meus planos. O vizinho da frente, aos berros:
- O que? Você está me acusando de enofilia?
Corri até a janela, claro. Ele estava em frente a casa, de cueca-tanguinha. (Nota da redação: é preciso muito cuidado com a roupa de baixo, nunca se sabe o que pode acontecer). Furioso, jogou as plantas no chão. Achei sacangem. As plantas não tinham nada a ver. A mulher, que estava dentro da casa resolveu berrar também:
- Enofilia não, idiota. Pedofilia. Pe-do-fi-lia. Pedófilo. Filho da puta.
O cuequinha:
- Isso não existe.
Mulher:
- Eu vou te matar.
Cuequinha:
- Mas as fotos nem eram minhas!
Mulher:
- Eu vou te matar.
Cuequinha.
- Eu gosto de xoxotas peludas.
Vizinho do andar de cima:
- Eu chamei a polícia!
Cuequinha:
- Olha ai o escândalo. Vou entrar.
Mulher:
- Entra. Agora.
Me recusei a voltar a dormir.
Escrito por Cristiane Lisboa às 07h32
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Conheci o Rio de Janeiro, já adulta e tola. Cai de amores pela decadência elegante do centro da cidade, a sandice de descer de um ônibus e entrar na cachoeira, a melhor cama do mundo, o baile funk, coalho com queijo, me beija que eu sou cineasta, a igreja de São Jorge, restaurantes portugueses que servem doce de abacate em pratinhos de alumínio, palmas para o sol que vai, a noite que chega. Lá, antes de muita coisa, descobri que sou absolutamente capaz de olhar nos olhos da felicidade, do mais que eu sonhava e decidir que não. Pelo simples fato de que as minhas asas não cabiam naquele ideal. Um amadurecimento forçado, bom, necessário. Então, neste novo momento de desabrochar, escolhi passar alguns dias por lá, tentando encontrar as certezas. Mas era tão feliz aquele lugar alto, em frente ao mar, que percebi ser falso. Não triste, nem doloroso. Mas falso. Olhei de novo e, com uma tranqüilidade até então desconhecida, arrumei a mochila com o maiô molhado, as roupas que sequer usei e desci em uma Porto Alegre gelada, chuvosa, escura e adorável como eu imaginava. Havia show do Nei Lisboa, no Teatro São Pedro, sol em frestas por entre os prédios, minuano, chimarrão e um tipo de amor que me esperava em casa, com cartazes de boas vindas em cartolina rosa. Não encontrei nada. Porque jamais perdi. As certezas e as respostas estavam todas dando voltas no peito. E apareceram. Foi só chamar.
Por isso, estou em São Paulo de novo e pela primeira vez admito, percebo que adoro a cidade. O cinza me atrai, é confortável caminhar no escuro, daqui estou pronta para qualquer lugar. Esta é minha casa. E é aqui que quero morar.
Escrito por Cristiane Lisboa às 15h51
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