Antonia, Sei que você não gosta da pinta escura, em formato de pingo que tem no lado esquerdo do lábio superior. Sei que você abraça as pernas quando precisa chorar. Sei que é sonâmbula e fala em espanhol durante os sonhos. Sei que prefere os dias nublados, as noites frescas e as amêndoas torradas com pele. Sei que você ama o cheiro de limão, e que seus cabelos brilham mais quando os lava antes de dormir. Sei que detesta pisar no chão molhado,de meia, que tem menos medo e mais amor pela Senhorita Virgínia. Sei que você desenha cerejas em todos os lugares possíveis, seja na cobertura do bolo, na árvore ou no lodo em volta do galinheiro. Sei que tem medo das aranhas que moram entre as lenhas, e mais medo ainda de colocá-las no fogão para que morram queimadas, sem querer, apenas porque estavam distraídas. Sei que você é simpática, mais por costume que por vontade. Sei que sua letra fica ilegível quando escrita em caneta preta e que você vê nuvens em forma de abacaxis quando está perto de chover. Sei que você prefere os botões vermelhos, e quem tem uma memória roubada de gente velha, cheia de versos, palavras, frases e molduras, que não cabem em uma moça com dezoito mas já quase dezenove anos. Sei que você tem medo de libélulas, que não sobrevive sem um lento café com leite de manhã, e que, se um dia tiver um filho vai chamá-lo Antônio Maria. Sei que você cozinha pelo fascínio infantil pela mágica, uma coisa mais outra dá em uma terceira. Que é uma delícia. Sei que você prefere os vestidos, as sandálias, e acha graça em quem usa blush e açafrào em todas as ocasiões. Sei que você chora com discrição quando precisa matar galinhas, embora tenha um certo prazer secreto em fazer isto. Sei que você finge que os dias tem trilha sonora, que escreve cartas com as receitas proibidas, e que jamais esqueceu que amanhecer no cais é uma das formas da felicidade. Sei que você sabe quem eu sou, e hoje a noite vai enfeitar o colo com um lírio, para que eu saiba que posso chegar perto.
Seu
* Carta do livro Papel Manteiga para embrulhar segredos, citado hoje na Folha Ilustrada, coluna da salve, salve Nina Horta. Coisa que por sinal, já me levou das lágrimas ao riso. Repetidas vezes. Tatu, isto merece um banquete, não?
Escrito por Cristiane Lisboa às 11h14
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Frase para camiseta: Nao fumo. Mas tenho subterfugios.
Escrito por Cristiane Lisboa às 13h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Verdade. Nao voltar é sábio. Ias te assustar descobrindo que falo sozinha e escrevo no escuro. E acendo velas, pois não gosto de luz. E guardo as calcinhas na geladeira. Se durmo, caio da cama. Uso óculos escuros para tomar café da manhã. Gosto de cidra com guaraná. Perco todos os anéis e nunca estou satisfeita.
Escrito por Cristiane Lisboa às 13h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Lisboa, abril de 2006.
Sylvia
O Tejo não brilha na minha janela. Daqui, vejo apenas outras janelas estreitas e dentro delas, não me atrevo sequer a olhar. O pudor alheio é uma das muitas manias que adquiri com meu pai e sabes, não gosto de livrar-me do desnecessário. Na manhã de hoje havia café forte demais para a delicadeza do acordar e um queijo mole, que mesmo não tendo sido pensado para tal, gruda na faca como manteiga gelada e quebra a bolacha em duas iguais. Antes assim. Que a solidão fique apenas no canto esquerdo do meu lábio. Mas mudemos o assunto. Pois hoje escrevo para dizer que finalmente entendi o tal conto que indicaste como leitura. É sim apenas no meio da estrada torta que percebemos que o encantamento, com todas as suas malícias e brilhos feitos de excesso de água nos olhos é uma das muitas formas de amar. Somos capazes de nos encontar por miudezas de alma, cães minúsculos, janelas azuis abertas para árvores e até pelo que faz algum mal, visto que a gente toda sabe que a dor é apenas o verso do gostar. E por essas pequenices brilham os olhos, levantam os pés e braços de manhã, digitam os dedos no tlec, tlec teclado de barulho oco e alto, serve-se a água do bebedor transparente. E assim, encantar-se vira um vício querido, parte da personalidade nascida só, não daquela outra que mostramos despreocupados pois foi moldada pelos livros, filmes e aprenderes. Esta personalidade, erva-daninha de fundas raízes passa o tempo a tentar tirar o véu de nossos olhos, fazendo-nos encantar a exaustão até que em um momento que geralmente dura dois, quatro segundo, deixamos que afinal, comece a doer o amor.
Já pensaste sobre? Pode dizer. Já não mordo mais. Caio
Escrito por Cristiane Lisboa às 11h45
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|