Porque a esquizofrenia é meu forte
"Vou de um lado a outro, sem medir, mal olho para os lados, que venham os carros, o ônibus e aquele homem que fala francês. Bom mesmo é nunca ser exatamente nada." Estas duas frases estavam perdidas no arquivo de word onde salvei os textos feitos para revista Simples. A última, aliás. Não sei se está na banca. Não acredito que eles vão me mandar pelo correio para que eu veja minhas palavras ilustradas pelo Binho,o amor. Mas adorei ter feito. Um depois do outro. ha-ha. E as frases perdidas são boas. E tem todo o sentido do mundo.
Você tá rindo de que?
A felicidade não existe, mas está a venda em remedinhos coloridos, lojas com ar-condicionado e agências de turismo. Ter um cabelo liso custa uma fortuna, mantê-lo crespo idem, raspar é demodê, a chuva que cai do céu não é água de beber e não se fazem mais piadas de papagaio como antigamente. Os mistérios são desvendados no domingo a noite por um caçador de mitos qualquer, todos dublados pelo Cid Moreira que aliás, nem lembra como se diz "boa noite". A risada é nervosa, ninguém mais mostra os dentes todos e nem acredita em mineiras histórias de fantasmas. Os crimes perderam o charme, verdade que mata-se bem e com crueldade, mas os bandidos não respeitam mais as pérolas das senhoras e, quando usam terno, camisa, colete, gravata e educação é para limpar o rego próprio e de familiares com o meu, o seu, o nosso voto. Não se pode mais ser rico neste mundo, a filha do Silvio Santos sente culpa, muita culpa de ser rica de marré de si, a chique da Daslu só queria que o Brasil fosse um luxo e os moradores do Leblon aprenderam a reconhecer as gigogas. E os jornalistas, coitados, estão quase publicitários falando de si para si mesmo e achando graça, muita graça no umbigo que não vai para debaixo d´agua nem fazendo força. Você ainda insite em escancacar esta boca? Cuidado com as testas e as bochechas, botoxmente condicionadas a paralisia da expressão feliz e mais cuidado ainda com os lábios de jovens senhoras idosas inchados a base de aparelhos fixos e transparentes para voltar dez anos nas fotos de caras e coxas. Foi-se o alumbramento, as surfistas estão na lista dos mais vendidos, o amor é líquido, fininho e seca por um nada. A esquerda é uma mancha vermelha de sangue seco no colarinho branco, decretou-se o fim da tal esperança brasileira e a alegria, senhoras e senhoras é só mais um corpo estendido no chão. E morreu de morte matada.
Alegria, alegria
Quem inventou é discreto. E grego. Alegria não vem de explosão, ou gritos, vem de de felicidade. Da palavra phelis, para ser bem exato. Desde sempre ela mora em corações, lembranças, caixas de música, tim-tim, aceito e imagens congeladas em papel ou retina. Atende também por euforia, jubilo, empolgação, vem cá meu nego que a vida é agora. E riso. Gargalhadas também. E lágrimas. Porque é muito possível usar a lágrima como condutora de um contentamento muito grande, sabia? Mais ou menos como fazem João, Bebel, Arrelia e aquela avó pequenina que limpa com coca-cola as bordas dos porta-retratos. No mais, pouco importa se estás alegrinho de bebes doces ou amargos, se o beijo foi bom, se teve gol, se as palmas foram altas, se houveram fogos de artifício em forma de cascatas ou deu certo, é tudo sim, as borboletas descobriram seu estômago, aquele olho finalmente viu ou a sua vida está com som, fúria e a trilha sonora dos seus sonhos. Porque quando nossos setenta por cento atingem os tais cem graus necessários para o ebulir da alegria, tanto faz. A gente quer é viver.
Escrito por Cristiane Lisboa às 19h03
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