Sou uma moça do sul, você sabe. Tenho predileção por invernos, vestidos longos, tranças e canções de amor. Sei o cheiro de julho. Emociono a alma em dias de ar turvo e prefiro as hortências. Tenho lembranças com água de hortelã e escadas recém lavadas onde pingos escorridos haviam congelado formando uma espécie de teia gelada. Ando descalça em pedras, gramas e areias. Brasas, talvez. Tentei, mas doeu. Sei as minúcias da lenha, o barulho que faz o fogo quando crepita do jeito correto para esquentar duas peças a cada quatro minutos e nunca mais esqueci a dança das sets fitas onde os casais vão entrelaçando pedaços coloridos de cetim até ficarem um de frente para o outro. Conheço, uso, evoco palavras como estância, bagual, buenacho, cusco, galpão, faconaço, invernada, macanudo, regalo, trova, milonga, xucro, bah, tchê, vivente, tradição e negrinho. Este último, tanto pode ser um guri pequeno a quem se tem afeição, amor, delicadeza de sentimento ou um doce de chocolate em forma de pequenas bolinhas cobertas com granulado. O tal do brigadeiro. Tem graça. Só o negrinho é que consegue ser doce, macio, sedoso e com gosto do frio minuano das minhas lembranças. Ai, ai.
* Comida de Alma, minha coluna deste mês na Estilo Natural.
Escrito por Cristiane Lisboa às 11h01
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