Que seja falsa entre nós cada verdade perto da qual não tenha havido pelo menos uma gargalhada. Nietzsche
Escrito por Cristiane Lisboa às 16h18
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Texto do mês
A louca tem toda a razão*
Os bem-comportados, os sensatos, os sempre bondosos, os que preferem linhas retas e horizontais, os que temem a solidão, os que escolheme tv, comida pronta e sono, os que nunca gargalham, os fãs da lógica, os que detestam supresas, os que escolhem o não, os que jamais se arrependem, os que tem ótima memória, os que calculam os riscos, os que não pulam do píer, os que sempre sabem onde estão os óculos e aqueles não acreditam em ditos populares, são estes que tem maus olhos para a louca. Aquela que nos faz crer na capacidade sobre-humana de amar, sentir, doer, gozar, ser feliz. E que transforma a infância em uma vida perfeita e aquele verão no mais inesquecível de todos os tempos. A doida. A que não pode tomar as rédeas. A louca da casa que é a nossa cachola. A nossa imaginação. Quem descobriu que a imaginação poderia ganhar este perfeito apelido foi Santa Teresa de Jesus, uma carmelita espanhola do século XVI que adorava um bom papo e escrever teorias e rezas belíssimas. Quem usou esta mesmíssima expressão para nos provar que a vida poder ser mais linda se conseguirmos fundir o que é e o que gostaríamos que fosse, entre o que aconteceu e o que sentimos que aconteceu, foi a escritora espanhola Rosa Montero, no livro intulado (claro) A louca da Casa. Nele, Monteiro mistura ficação, quase mentiras e realidade inventadas e vividas para falar dos escritores, estes doido varridos, mas principalmente para provar que a maior parte de nossas vidas faz parte de um mundo imaginário que nós mesmos criamos. E que isso, é vida. Como? Ora, seja sincera, existiu por acaso algum verão que tenha sido vivido com verdade absoluta? A memória é muito limítrofe, não consegue guardar com precisão toda a cor, o som e a fúria de cada momento específica. Ela tenta. Mas é a imaginação que em um estalo de língua relembra tudo. Exatamente como aconteceu. "A narrativa é a arte primordial dos seres humanos. Para ser, temos que nos narrar, e nessa conversa sobre nós mesmos há muitíssima conversa fiada: nós nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos. O que contamos hoje sobre a nossa infância não tem nada a ver com o que contaremos dentro de vinte anos. E o que você lembra da história comum familiar costuma ser completamente diferente daquilo que seus irmãos lembram. Às vezes troco algumas cenas do passado com a minha irmã Martina, como quem troca figurinhas: e o lar infantil desenhado por uma e pela outra quase não têm pontos em comum. Os pais dela se chamavam igualzinho aos meus e moravam numa rua com o mesmo nome, mas certamente eram outras pessoas." escreve Monteiro. E pensamos nós. Claro que a vida não pode ser uma deslavada mentira. Mas a verdade pura, simples e imparcial faz com que a pedra seja sempre pedra, o macarrão nunca al dente e os namorados exatamente como são. Quando a verdade é que os acontecimentos precisam ter a dimensão dos seus sonhos. Aliás, seja sincero, as estrelas realmente dançaram no momento exato do seu primeiro beijo? E seu irmão disse "oi" quando chegou da maternidade? Guiados pela excessiva racionalidade que somos treinados, repito, treinados a seguir, deixamos de imaginar os acontecimentos e perceber as minúcias a nossa volta. E o que é vira sempre o que foi, não o que você percebeu. Não é chatíssimo? No cinema, dois filmes nos lembram que os olhos podem ver muito pouco em comparação com a louca da casa. Em "Peixe Grande e suas histórias maravilhosas" Ed Bloom Albert Finney é um homem cuja grande diversão é contar as hitórias de sua volta ao mundo. Para cada platéia, a história ganha novas versões e cada vez é mais fantasiosa. As histórias fascinam todos que as ouvem, com exceção de Will Billy Crudup, filho de Ed que em vão procura saber o que realmente aconteceu. Quando ele se dá conta de que isso não tem a menor importância, o momento do abraço já passou. Já em "O amor é cego" um homem que só namora mulheres em perfeito estado de conservação e com todas medidas no lugar, é enfeitiçado para enxergar apenas a beleza interior das moças. E só então descobre o amor. Outra qualidade da imaginação, essa insana é nos permitir acreditar quando Chico Buarque diz que "apesar de você amanhã há de ser outro dia" e que saltar no abismo vai nos salvar da mediocridade e que a paixão vai sim nos salvar de domingos tediosos. A própria imaginação do tempo embaralha as lembranças com o que não aconteceu para que nossa existência entre para o álbum familiar como mais interessante. E assim, heroicamente nos salva da falta de graça e do desamor. Aliás, segundo Rosa Monteiro, o pecado original com o qual temos que nos acostumar foi causado porque em determinado momento Adão E Eva - que eram loucos de pedra - simplesmente pararam de imaginar. E só então se ecandalizaram com a própria nudez, caindo no mundo real com todos os seus limites, fraquezas e muito menos exuberância. Mas, afinal, como deixar que a imaginação tome conta dos nossos dias? Como fazer com que ela não fique trancada no sotão da casa que é nossa cabeça e de lá só saia quando o torvelhinho for forte demais, coisa rara em que não deixa fluir? Escrevendo a vida vivida em alguma lugar bem mais sensível do que papel, tela, computador. Dentro de cada um de nós. Porque? "Nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas. É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça." fala Rosa Monteiro, uma mulher que transcreve com alegria a própria história e escuta bem como deveria o daimon que cochicha no ouvido de todos nós.
* publicado na revista Estilo Natural de janeiro.
Escrito por Cristiane Lisboa às 15h40
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O grande probelam de se colocar o coração em uma baixela de prata é o descaso. Ninguém acreditaria em uma coração em uma baixela de prata então, acha-se que é um canapé ou uma perna de cabrito. (os corações tem tamanhos que desconhecemos) E, se por acaso a pessoa a quem o coração tiver sido oferecido na baixela de prata decidir provar a iguaria achando que é um canapé ou um cabrito, visto que poucos no mundo comeriam um coração assim, sabendo o que é. Mesmo se estivesse flambado. Esta pessoa vai sentir gosto de limão. Porque quando é choro ou dor o coração sente. Mesmo que há muito nem more no peito.
Escrito por Cristiane Lisboa às 10h47
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