Parente a gente não escolhe.
Nei Lisboa não é meu parente. Inclusive, tenho um acento circunflexo no sobrenome para diferenciar. Mas já menti que era por motivos que vão desde faltar provas na faculdade até conseguir interesse de moços de olhos cor verde sujo, uma certa obsessão que tive dos quinze aos dezenove. Hoje me dia não minto. Mais por preguiça do princípios, estes carcereiros da coragem absoluta. Talvez porque ele não seja meu parente, o adoro. Gosto dos versos das músicas, das delicadezas, do jeito de fazer graça com ironia e da maneira como caminha sobre águas revoltas e mansas. Ontem fui a um show dele aqui em São Paulo. Coisa rara, de quase nunca mesmo, perfeita para um quase fim deste ano montanha-russa desgovernada. Fui sozinha, o que foi bom. Não havia como dividir as lembranças e o hospício que se abrem em determinados versos. Não dancei. Mas cantei. E fui absolutamente feliz.
Telhados De Paris
Venta Ali se vê Onde o arvoredo inventa um ballet Enquanto invento aqui pra mim Um silêncio sem fim Deixando a rima assim Sem mágoas, sem nada Só uma janela em cruz E uma paisagem tão comum Telhados de Paris Em casas velhas, mudas Em blocos que o engano fez aqui Mas tem no outono uma luz Que acaricia essa dureza cor de giz Que mora ao lado e mais parece outro país Que me estranha mas não sabe se é feliz E não entende quando eu grito
O tempo se foi Há tempos que eu já desisti Dos planos daquele assalto E de versos retos, corretos O resto da paixão, reguei Vai servir pra nós O doce da loucura é teu, é meu Pra usar à sós Eu tenho os olhos doidos, doidos, já vi Meus olhos doidos, doidos, são doidos por ti
Escrito por Cristiane Lisboa às 15h41
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|