Cristiane Lisbôa


ichi gi ichi e *
Meu termômetro de vida é a sexta-feira. Em épocas de pouco coração, há dança. Em tempos de frio, há escritos. Hoje leio "A boa mesa de Schott" e me encanto pela história da Cha-no-yu, a cerimônia do chá. Não sei o que isso quer dizer. E nem quero. Na leitura, descobri as dez virtudes da bebida e imediatamente escolhi o motivo para a minha água ferver. Conta qual é o teu?

As virtudes do chá

Todas divindades o bendizem.
Fortalece a amizade.
Estimula a piedade filial.
Disciplina o corpo e a mente.
Afasta o demônio.
Destroí as paixões.
Combate a sonolência.
Propcia uma morte serena.
Afugenta as doenças.
Harmoniza os cinco órgãos.


* Uma chance única na vida.

Escrito por Cristiane Lisboa às 23h57
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E então a festa de ontem foi assim, digamos, um sucesso absoluto. Cheia, feliz, leve. Ri até doer a barriga. E entre uma coisa e outra percebi - finalmente - que algumas pessoas não merecem assim, mais que um dedo de prosa. Por isso, de hoje em diante, não brinco com fogo. Cansei de fazer xixi na cama.

Escrito por Cristiane Lisboa às 09h50
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Poema favorito
Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.


(Pablo Neruda)

Escrito por Cristiane Lisboa às 19h25
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Meus segredos impublicáveis *
- Na primeira vez que bebi caipirinha, cai em cima de uma Girafa que os pais do meu melhor amigo tinham trazido da África na viagem de segunda lua-de-mel. A orelha da Girafa entrou na minha testa. O médico tirou e colei de volta para ninguém perceber.

- Eu tenho medo de galinhas. Não é nojo. É medo. Galinhas são más, bicam, fedem e são capazes de fazer "có" depois de mortas. Acredite.

- Já vendi um pato de brinquedo para um primo rico com problemas de visão. Jurei que era um pato de verdade. Eu tinha seis anos e ele oito.

- Não gosto de cerveja.

- Fui dama de honra oito ou nove vezes sempre variando entre o cabelo chanel liso e cachinhos presos por tiaras de fitas de cetim. As noivas me disputavam, eu tinha um guarda-roupa exclusivo para casamentos e luvas de voal branco. Haviam fotos minhas em quase todas as casas da cidade. Pessoas me comprimentavam na rua e desconhecidas me queriam em seus casamentos. Jamais tropecei no tapete vermelho ou esqueci as alianças. Ai, comecei a usar sutiã. E descobri que a fama é volátil como pó de tatu bola.

- Bebo vodka com suco de laranja. Sozinha.

- Na pista de dança, não me contenho e faço passos coreografados que dão dor nas costas no dia seguinte.

- Acho a Lya Luft uma chata.


* post dedicado a Ademir Corrêa, que lança livro novo amanhã.

Escrito por Cristiane Lisboa às 09h39
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Acústico MTV
Zeca Pagodinho 2 - Gafieira

Afaste as cadeiras da sala

Jessé Gomes da Silva Filho ganhou o apelido de Zeca Pagodinho em desfiles no bloco Boêmios do Irajá, no Rio de Janeiro. O talento para o samba, não se sabe. Mas pra que mesmo querer saber? Depois de ser o primeiro sambista a participar da série Acústico MTV, Zeca grava seu volume dois. E mostra de novo porque é o artista mais carismático da música brasileira. Gravado no Pólo do Cine e Vídeo, no Rio (sendo que os acústicos passaram a ser gravados somente em São Paulo) o cd transforma qualquer lugar, mesmo os modernos com sofás de couro branco e drinks de nomes estranhos, em uma gafieira típica da década de 50. E das melhores. Muitíssimo bem acompanhado por uma orquestra de 39 músicos, Zeca está em casa e por isso mesmo, mais bamba do que nunca. O repertório é luxuoso como convém a uma festa deste porte e tem regravações de "Beija-me", "Cabô Meu Pai", "Tive Sim" e 'Lenço", esta com a participação da Velha Guarda da Portela que, como da primeira vez, arrepia e emociona. Há algumas inéditas também como "Quando a Gira Girou" e "Sururu na Feira" que no primeiro refrão já saem da boca facilmente, mostrando que devem ter sido escolhidas com o coração. Porque malandro é malandro, desde sempre.

A morte de Ivan Ilitch
Lev Tolstói
Ed. 34

Morrer dói. Para quem vai.

Existem maneiras decentes e quase indolores de morrer. Ivan Ilitch, o personagem desta novela considerada por alguns críticos como a mais perfeita da literatura russa e mundial, adoraria ter conhecido ao menos uma delas. Mas seu destino estava nas mãos de Tolstói que aliás, regressou a literatura com este livro, depois de um tempo dedicado a uma obscura vida espiritual. O resultado é um relato angustiante e comovente das dores físicas e morais de um burocrata diante da doença e da morte. Em meio ao sofrimento, o escritor expõe os podres da mesquinha sociedade burguesa e é tão minucioso na descrição de ironias e pensamentos que, por vezes, a ficção nos engana, fazendo parecer que ele está falando do que vemos agora, hoje e não dos russos do século XIX. Enquanto a morte se avizinha e as máscaras ao seu redor caem, Ivan Ilitch questiona a si mesmo e no limiar da consicência entende a sua solidão. De forma tão intensa e bem escrita que acaba sendo a de todos nós.

Duas das minhas resenhas publicadas na Rolling Stone. A quem tem o Igg Pop na capa, sabe? Não sabe? Vai pra banca, rapaz.



Escrito por Cristiane Lisboa às 18h55
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convite_imperador.gif

Escrito por Cristiane Lisboa às 15h37
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Coisas, coisas
a sala do meu apê tem pedação grande, bem grande, sem piso.
pode?
eu, uma pessoa phina, chique, que tem delineadora da Mac?
não. mas é.
a faxineira que quebrava todas as coisas foi embora, veio uma
que logo na primeira faxina mexeu bem onde no primeiro dia de reconhecimento do lar avisei: aqui, ninguém mexe.
são os cacarecos do meu namorado, sabe aquele da barba? este. não mexe, tá? nem que apareça um rato.
ela fuçou, pandoramente. e cortou a mão. um talho enorme. desmaiou. levei ela até o banheiro, os gatos lambendo o sangue que caiu no trajeo sacada-banheiro.
eu histérica. tranquei os gatos. eles berravam. ela chorava. amarrei uma toalha (por sinal, a única linda e bordada) na mão dela e táxi, hospital.
4 pontos e uma grana.
levei ela em casa.
vim pra minha, limpei tudo.
chorei horrores.
e entrei no cheque especial de novo, claro.
agora não há mais roupas secas, nem limpas e nem nada.
E perdi a dentadura de vampiro que era minha companheira para escrever e atender o telefone e a porta, repito, a porta. Não muda nada, mas é bem engraçado.
Não sei quanto tempo dura a coalhada seca na geladeira. E entendi finalmente que o bom de escrever é não saber o que vem na página seguinte.


Escrito por Cristiane Lisboa às 09h04
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