Cristiane Lisbôa


Um velho conto
Puta calor escroto! Sim, sim estamos atrasados mas não se preocupe, vai dar tempo. Enquanto estamos aqui podíamos conversar, né? Aliás, terminar perguntas com "né" como se eu fosse uma japonesa bem pequena é uma mania tua que em dado momento comecei a ter. Sabe, uma vez li que psicologicamente explicando terminar as frases com "né" é uma espécie de carência intrincada e desconhecida que culmina no desejo de que o outro te absolva. Triste, né? Oh, me desculpe pelo assunto é que eu não tinha nada pra dizer. Ainda mais agora. Ainda mais aqui. Sei, já conversamos sobre isto. Não pretendo voltar no assunto, essa coisa liptica me deixa nervoso, estranho, doido, bêbado e com sono.
Sim, calor é ruim. Ainda mais no trânsito. Como assim não terás mais trânsito? Aquela é uma cidade tão grande quanto esta. Talvez mais fedida. Se não, um cheiro estranho. Todos aqueles tomates esfregados em pães duros. Pega uma maçã. Com esse sol capaz delas derreterem. Fruta derrete. Morangos principalmente. E viram uma uma gosma vermelha e doce tipo mel e sangue. Não que eu já tenha provado a combinação mas o cheiro já senti. Não lembro quando, mas já. Maçã não sei, mas é tudo fruta devem ter o mesmo fim. Fique calma, minhas ironias ficaram na gaveta esquerda da cozinha, aquela das facas. Vamos parar com isso? É constrangedor perceber que mal falamos duas frases com lógica e salta uma faísca afiada. Por isso é melhor que seja assim, digo antes de ti. Senão íamos ficar como aqueles casais que encontram uma temperatura mais segura comentando sobre o tempo e que vão ao restaurante e trocam duas palavras. Mesmo assim, pra reclamar de alguma coisa do cardápio ou o garçom lerdo. sabe que as vezes penso que essa é fórmula da felicidade? Meu pai e minha mãe era assim e ficaram casados até morrer. E antes deles meus avós e assim sucessivamente. O que? Sucessivamente é quando vai pra frente, não pra trás? Tem certeza? Deixa de ser chata. Tem razão. é mentira minha. Não acredito que nada seja melhor assim. Mas racionalmente parece. Não parece? Racionalmente tudo é melhor de outra forma ou da forma que a gente não quer de verdade.
Odeio quem buzina. Desejo sempre que a pessoa morra de uma morte bem dolorosa e ai me arrependo e mordo a língua até quase machucar. O que eu estava falando antes? Merda. Dobrei errado. Podia ter avisado. E aqui é contramão. Se bato o carro agora não tem essa bobagem de avião e essa viagem estúpida e sem nenhum nexo. Não chora. Desculpe. Sei que já conversamos exaustivamente sobre esse assunto, mas foi sem pensar, juro. Como quase tudo que falei desde aquela festa em que a gente se encontrou e estavas em um canto da festa com o encarte do cd nas mãos tentando acompanhar as letras. E não olhavas para ninguém. A ai, quando deu meia-noite e nem era ano-novo te vi sem o vestido no chuveirão atrás da casa. E só então percebeste que eu estava te olhando. Achei graça. Duas horas para perceber algo que não fosse a si mesmo. Sim, é um elogio. Não faz essa cara. Vamos seguir lembrando, por favor. Depois?
Depois nos beijamos e imediatamente percebi que és uma destas mulheres que se arrepiam quando beijadas exatamente no meio da parte de trás da orelha. Raras. Adoro essa risada. Quano escuteia primeira vez me achei tão cafona. "Como ela ri bonito." Do beijo pediste uma bebida forte. Fui e quando voltei não te encontrei em parte alguma. Arrepiei de medo. Por muitos segundos pensei que fosse uma assombração. Não ria. Tenho um avô mineiro, ouvi todas as historias de assombração. Quando estava amanhecendo decidi que tu era uma dessas que gostam de cenas. Oh! Foi embora sem deixar vestígios.
O que? Como assim e agora? Tenho certeza. Mas é só as vezes. Ter decidido que eras uma viva fez com que eu fosse conseguir informações com os donos da festa. Era um casal de bichas bofe com muito preto na decoração e um sofá de couro branco. Eles deram o nome e juro, é verdade, não me interrompa, o teu telefone. Anotei na mão e fui embora. A tinta se dissolvendo naquela noite sufocante. Ensurdecedora. E a tua mãe que diz : hoje tá tão quente que acho que vou ficar surda?
Estamos voltando a ri juntos. Deve estar acontecendo algum cataclisma no Japão. Porque sempre que alguma coisa boa volta a acontecer alguma coisa ruim acontece ao mesmo tempo. Pra equilibar o universo, sabe? Melhor isso que surdez de calor.
O fato é que consegui salvar teu telefone na minha mão suada e te liguei assim que cheguei em casa. E então disse "oi sou eu" e tu disse aquele “quem?” com um certo desprezo na voz. Eu sabia que tu sabia quem tava falando. Mas entrei no jogo e expliquei. Sei bem que mulheres são todas mentirosas. Não é machismo, burra. É respeito. Parar? Porque? E as canetas bic? Fiquei meses com caminhos desenhados na barriga e pequenos corações na sola do pé. Bom, e ai tu me atendeu com um – agora tenho certeza absoluta - falso desprezo e fomos a um bar com velas nas mesas. E queimaste os cílios tentando acender o cigarro. E depois disso não falo mais porque chegamos. Vou parar aqui, a mala não pesa, sem drama, pega um carrinho. Tchau. Não me beija. Ah, faz um favor? Não volta nunca mais.


Escrito por Cristiane Lisboa às 17h42
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