Canta pra subir ou três frases que não saem da minha cabeça
"Ando tão a flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar. Ando tão a flor da pele que a minha pele tem o fogo do juízo final. Ouve os sinos, amor."
Escrito por Cristiane Lisboa às 13h51
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Tu beija?
Quando o beija, sente gosto de lichia madura. Gosta da lentice dele, do jeito de fazer com que o encontro de lábios e línguas seja lento, mesmo quando dura segundos ínfimos na porta do elevador antes que tudo feche, ele vá, o dia enfim amanheça. Estremece de lembrar que a secura dos lábios no frio fica úmida de saliva e restos da noite passada. Nada é morno no beijo dele. Nem o arrepio fora de contexto que lambe os seios ao encostar o chá de genfibre na língua, detentora de gostos que só ele conhece. Hoje a tarde vai cair de novo em tentação. Mas é só mais uma vez.
Escrito por Cristiane Lisboa às 10h45
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O dia que vi um Jabuti de perto
Cai na sala de um editor dia desses. Se não bastasse o medo que eu sentia de dizer alguma coisa errada, dele odiar meu livro ou sei lá, rir de mim, ainda tinham um pombos batendo furiosamente na janela. Eles usavam as asas e o barulho era de socos infantis sendo atirados com raiva contra um vidro grosso. Pense em terror. Foi bem pior. Ai ele entrou, pediu uma água e dois cafés - que aceitei mesmo sem ter solicitado nada - e desandou a falar coisas sem olhar diretamente pra mim. Pensei que ele olhasse os pombos, e, discretamente, virei na direção que o desviava. Uma estante enorme, cheia de livros lindos e várias pequenas estatuetas de tartarugas. Aliás, tartarugas horrorosas de bronze verde. Pensei na hora "ele coleciona tartarugas, deus meu. Porque ninguém me avisa?" Adoro tartarugas. Tive algumas e poderia puxar um assunto certeiro e passar a imagem de foda, ótima conversa e tal. Apontei para os bichinhos e graças ao meu santo que é deveras forte o chique editor falou antes: - São os jabutis que nossos livros já conquistaram. Há. Quer dizer que o Jabuti, o mais tradicional e prestigiado prêmio literário do país, aquele que todo mundo quer eu também e Marcelino Freire salve, salve ganhou é um troféu em forma de ...jabuti? Sorri lindamente como se aquela informação fizesse parte do meu DNA de escritora e seguimos o papo. Pedi com licença e fui ao banheiro chorar de rir. Mas foi de nervoso.
Escrito por Cristiane Lisboa às 20h23
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Dádivas são para os maus
Nunca fui boazinha. Jamais tive classe ao me levantar de tombos. Normalmente sangro ao vivo e, quando não quero, erro todos os passos e esqueço onde fica a saída. Tenho um coração burro, erro todas receitas, esqueço as datas, quebro os saltos e meu perfume sempre acaba quando não posso comprar mais. Cortam a luz porque não sei onde está o boleto. Quando acho, não foi pago. Os livros andam pela casa sabe-se Deus como. Gasto o que não posso em calcinhas que não uso porque sou alérgica a rendas. Tenho pesadelos. Aliás, sou péssima companhia noturna, porque dou risada sozinha, ando pela casa, falo, escrevo, leio, tenho acessos de tosse e meus pés são um gelo. Semanalmente, quebro todos os copos da casa. Acidente. Mudo os móveis de lugar quase todos os dias e tenho certo fascínio por pregos e martelos. Juntos. Sou birrenta, chata, cabeça dura. Não peço desculpas, não dou o braço a torcer e muito menos forço sorrisos. Mesmo assim, em um fim de tarde destes encontrei o Chico Buarque. E o abracei. E ele beijou levemente o local que fica entre meu lóbulo esquerdo e o começo do pescoço. Hum-hum.
Escrito por Cristiane Lisboa às 16h53
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