Pra quem não sabe, escrevo sobre gastronomia também. Tenho uma coluna chamada “Comida de Alma” na revista Estilo Natural (Ed. Símbolo) e um mês desses publiquei a receita de pão de queijo, inspirada na história Andrea del Fuego. Sabe ela?
No RG de Andrea o local de nascimento é objetivo: São Paulo, local de garoas, prédios e esquinas tranformadas em músicas. Mas ela conta pelo mundo que nasceu mesmo foi em Minas, ao lado de dúzias de tias, primos, histórias de arrepiar o cabelo ou amolecer o mais duro dos corações. Porque foi lá, onde desde sempre passou férias, invernos, natais e feriados longos que aprendeu que qualquer mal se desfaz com um forte chá de boldo, que o amor pode ser entregue em fatias de bolos e que é na cozinha que se escondem os grandes segredos da felicidade. É que lá em Minas, uma mesa farta é sinal de família decente, e se além disso, ela tiver iguarias passadas de geração em geração signfica que todo mundo pode voar alto, o chào vai estar sempre ali. Então, receitas são guardadas como mapas de tesouros entregues somente as mulheres fortes, capazes de tomar para si a tarefa de decidir o próprio destino. Bem pequena, Andrea foi escolhida. Ganhou um caderno de capa dura e aprendeu a escrever para anotar as receitas ditas em voz alta. Anotava as minúcias, os segredos e imagino que inventava um pouco a menina. Mas era proibida de fazer, precisava de idade para o fogo. Quando a tal idade chegou ela botou roupa nova, prendeu um lenço florido nos cabelos e ao lado da tia mais velha misturou, amassou e deu forma aos famosos pães de queijo da família. Quando sairam do forno ela tirou do bolso o RG. E até hoje jura que no local de nascimento diz “Minas Gerais”.
Escrito por Cristiane Lisboa às 10h40
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Essa semana fui chamada para fazer um teste de emprego em uma empresa grande, com elevador, RH e máquina de salgadinhos no corredor. Cheguei bem no horário, usando meu lindo sapatinho vermelho. E a coisa era muito, mas muito mais séria do que pensava minha vã e minúscula filosofia. Recebi um teste com umas sessenta questões dissertativas de conhecimentos gerais. Pedi para não escrever com bic. “Minha letra fica ilegível.” Tive esperança de que usar minha própria caneta aumentaria minha confiança. Tsc. Aos poucos, fui ficando nervosa, confusa, as pessoas falam muito, muito alto a minha volta e as vezes ficavam paradas atrás de mim, lendo o que eu escrevia no computador. O resultado é que disse que Antônio Conselheiro era um mestre nordestino (pode rir) e cada vez que me lembro dou um gritinho agudo e tenho muita vontade de bater a cabeça na parede. Com força. É mais forte que eu. Estou aqui, no meio de um parágrafo e me vem as perguntas do teste, as minhas respostas em verde e meu Deus do céu, fecho os olhos e balanço a cabeça para os dois lados. Eu não podia ter feito aquilo. Não eu, sabe? Que aprendi a ler com 3, entrei na faculdade com 17 e nunca sequer fiquei de recuperação. Carreguei por anos a desconfortável faixa de prodígio, a mocinha cabeçuca, que poderia fazer qualquer coisa que dependesse do pescoço para cima. Faz-me rir. Isso só fez com que até hoje todas as conquistas pareçam rasas. Conquistar independência no grito, decidir sozinha, abrir uma editora, parir livros, cair de pé. Dava para ter sido melhor. Ou mais bonito. Ou mais brilhante. Dava. Não deu. Mas pensando bem, o que aconteceu foi interessante. E bater a cabeça na parede nem dói tanto assim.
Escrito por Cristiane Lisboa às 14h48
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Ah, sim. A copa. Queria gostar muito e colocar bandeiras na sacada e usar camisetas da Nike e achar o Ronaldinho uma bola. Mas tenho preguiça. E o barulho das cornetas, meu Deus eu socaria em um formigueiro as pessoas que usam corneta. Sabe aquela? Que faz fuéééééé? Horror. No mais, o Figo, da seleção Portuguesa é uma graça. E adoro que me liguem na hora do jogo.
Escrito por Cristiane Lisboa às 14h43
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Dia desses dois moços que são vips aqui em meu lar eram os convidados da janta. Testei uma receita velha, que aprendi em um hotel-fazenda maravilhoso onde fiquei hospedada em dias felizes. Deu certo. E com drink de manga e trilha sonora de hits, uhu, quase rolou dancinha. Testa ai, vai.
Meio quilo de alcatra cortada em cubos Um pouco de bacon 2 cebolas em fatias finas 2 cenouras em quadrados 1 cerveja preta (a marca vai do teu bolso) 2 folhas de louro sal e pimenta
Doure a carne e a cebola em uma panela de pressão. Junte todos os outros ingredientes e cozinhe por 25 minutos. Sirva com arroz branco e purê. Não esqueça de brindar.
*Durante a ditadura, quando alguma matéria era censurada os jornalistas substituiam por receitas. Só para avisar.
Escrito por Cristiane Lisboa às 14h09
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